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Quando o futebol feminino mais precisa do Grêmio, o Grêmio escolhe se afastar.

  • Foto do escritor: tavernatricolor
    tavernatricolor
  • 26 de ago.
  • 5 min de leitura

Por Willian Quevedo.

FOTO: CAROLINE MARTINS/GRÊMIO FBPA O Grêmio terá, no próximo sábado, um dos jogos mais importantes da história recente do seu futebol feminino. Pela ida das quartas de final do Campeonato Brasileiro, as Mosqueteiras enfrentam o São Paulo, às 16h30. Será o oitavo colocado da primeira fase contra o líder da competição, que terminou a etapa classificatória com 41 pontos. Uma tarefa difícil, contra um dos melhores times do país, em uma eliminatória que pode colocar o Grêmio pela primeira vez na semifinal do Brasileirão Feminino A1.

Era o momento perfeito para mobilizar o gremismo.

Mas o Grêmio resolveu fazer exatamente o contrário.

O mando é das Mosqueteiras, mas o jogo será disputado no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, a mais de cem quilômetros de Porto Alegre. E não estamos falando de uma partida qualquer: é mata-mata, sábado à tarde, com transmissão de TV Globo e SporTV. É justamente o tipo de ocasião que deveria ser aproveitado para aproximar ainda mais a torcida do futebol feminino.

A decisão se torna ainda mais contraditória quando lembramos do que o próprio clube disse no início deste ano.

Em fevereiro, ao anunciar que as Mosqueteiras passariam a mandar seus jogos no Passo D'Areia, o Grêmio explicou que a escolha buscava aproximar a equipe da torcida, criar uma identificação com o estádio e construir uma verdadeira sensação de jogar em casa. Meses depois, quando finalmente chega justamente o tipo de partida capaz de consolidar esse processo, o clube retira o jogo de Porto Alegre.

E havia sinais claros de que essa aproximação estava começando a acontecer.

No último sábado, mais de 400 gremistas estiveram no Passo D'Areia para acompanhar a vitória por 1 a 0 sobre o Botafogo. Foi uma partida dramática, que terminou com a classificação sendo confirmada também pelo resultado de Ferroviária e Fluminense. Houve comemoração nas arquibancadas e uma conexão entre time e torcida que o próprio Grêmio dizia querer construir.

Qual deveria ser a resposta do clube diante disso?

Trazer mais gente.

Fazer campanha.

Mobilizar os sócios.

Transformar Grêmio x São Paulo em evento.

E não mandar o jogo para outra cidade.

Se utilizar a Arena representa um custo elevado, então aparece outra pergunta: para que serve o departamento de marketing de um clube do tamanho do Grêmio?

Marketing não pode servir apenas para anunciar camisa, publicar arte de jogo e divulgar patrocinador. Um departamento desse porte também existe para encontrar soluções comerciais.

Por que não buscar um patrocinador específico para a partida? Criar propriedades comerciais exclusivas para o mata-mata? Fazer uma campanha entre os patrocinadores atuais? Vincular a presença no futebol feminino a algum benefício futuro? Quem sabe oferecer ao torcedor que comparecesse ao jogo das Mosqueteiras alguma prioridade ou promoção para uma partida do masculino de menor procura?

Pode-se discutir cada uma dessas ideias. Algumas seriam viáveis, outras talvez não. Mas é justamente para descobrir isso que existem profissionais trabalhando diariamente dentro do clube.

Alternativas precisam ser procuradas antes de simplesmente concluir que não é possível.

Até porque esta partida possui algo que patrocinador algum despreza: exposição nacional. Grêmio x São Paulo estará na televisão aberta. A própria estrutura financeira do Brasileirão Feminino 2026 demonstra o crescimento comercial da competição: cada clube recebeu R$ 720 mil pela participação na primeira fase, mais do que o dobro dos R$ 300 mil de 2025, e partidas escolhidas para transmissão nacional geram uma cota adicional de R$ 20 mil. O campeão receberá R$ 2 milhões.

Não significa que R$ 20 mil pagariam a abertura da Arena — evidentemente a questão é muito maior do que isso. Significa que existe produto, exposição, audiência e possibilidade comercial para trabalhar.

É isso que deveria ser explorado.

E existe um contexto ainda maior.

Em menos de um ano, Porto Alegre será uma das oito sedes da primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. O Beira-Rio receberá sete partidas do Mundial de 2027. Enquanto o mundo prepara os holofotes para o futebol feminino e a própria cidade se prepara para recebê-lo, o Grêmio tira da Capital justamente seu maior jogo da temporada.

Há algo profundamente errado nessa lógica.

Ainda mais porque existe história sendo perseguida.

O Grêmio chegou às quartas do Brasileiro em 2020, 2021 e 2022 e caiu nas três oportunidades, diante do Corinthians em 2020 e do Palmeiras nas duas seguintes. Em 2021, chegou inclusive a vencer o primeiro jogo contra as palmeirenses por 2 a 1, antes de ser eliminado na volta. Portanto, uma classificação diante do São Paulo significaria algo que o clube ainda não conseguiu na Série A1: chegar às semifinais do Campeonato Brasileiro Feminino.

Era para Porto Alegre saber disso.

Era para o gremista ser convocado durante toda a semana.

Era para as redes sociais martelarem a importância desse jogo.

Era para dirigentes aparecerem convocando a torcida.

Era para patrocinadores serem chamados.

Era para o clube tentar lotar o Passo D'Areia ou, melhor ainda, pensar grande e trabalhar para transformar a Arena em palco de uma tarde histórica.

Se depois de todas essas tentativas fosse comprovadamente impossível, ao menos existiria uma história para contar: tentamos de tudo.

O que não pode ser tratado como solução normal é simplesmente colocar o jogo na estrada. Independentemente da justificativa administrativa, financeira ou operacional que venha a ser apresentada, existe um prejuízo que nenhuma planilha consegue esconder: o Grêmio está retirando das Mosqueteiras a oportunidade de disputar em Porto Alegre uma partida histórica justamente quando começava a criar público para elas.

E é aqui que precisamos separar responsabilidades.

Essa crítica não pode ser despejada sobre quem trabalha diariamente com as atletas. Não é sobre comissão técnica, jogadoras ou profissionais que fazem o departamento feminino funcionar todos os dias. Decisões sobre estádio, orçamento, utilização da Arena e disponibilização de recursos passam por outros níveis da estrutura do clube.

Não adianta atirar em quem está no dia a dia das Mosqueteiras quando quem decide o tamanho do investimento está alguns andares acima.

E, diante de tudo isso, é difícil afastar uma sensação incômoda: parece preguiça institucional com o futebol feminino.

Porque pensar alternativas dá trabalho. Criar uma operação especial dá trabalho. Conversar com patrocinadores dá trabalho. Mobilizar sócios, organizar campanha, negociar custos e transformar uma partida em evento dá trabalho.

Mandar o jogo para outro estádio é mais fácil.

Só que clube grande não pode escolher sempre o caminho mais fácil quando fala em desenvolver uma modalidade.

Valorizar o futebol feminino não é publicar homenagem no Dia da Mulher, trocar a foto de perfil ou produzir um bonito vídeo institucional. É tomar decisões concretas quando elas custam dinheiro, exigem trabalho e colocam à prova aquilo que o clube diz defender.

No sábado, o Grêmio estará tentando derrubar o líder do Brasileirão e conquistar uma vaga inédita entre as quatro melhores equipes do país.

Era para ser uma tarde de mobilização gremista em Porto Alegre.

Infelizmente, quem tem a chave do cofre decidiu que será em Caxias do Sul.

As Mosqueteiras mereciam jogar em casa.

E, desta vez, casa deveria significar casa mesmo.

 
 
 

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